1

O espelho do closet era sinistro. Um monstro importado de Veneza, com uma moldura dourada que gritava grana alta e poder. Mas pra Monique, aquilo ali era só uma testemunha muda da merda que a vida dela tinha virado.

Ela encarou o próprio reflexo. A mulher que olhava de volta era a tal “Jóia do Leblon” das colunas sociais. Cabelo preto feito asa de corvo, caindo em ondas perfeitas nos ombros pálidos. Boca vermelha, desenhada com a precisão de um cirurgião pra fingir desejo e esconder o vazio.

Monique tocou a lateral do corpo, logo abaixo da costela esquerda. Tinha uma marca ali. Um roxo esverdeado, abrindo na pele branca que nem uma flor podre. O “presentinho” do Paulo da noite passada, só porque ela tinha “rido alto demais” num jantar de negócios.

— A base cobre — ela sussurrou pra si mesma, a voz arranhada

Pegou o frasco de Dermablend e começou o ritual. Camada sobre camada. A dor física era chata, latejava, mas o que sufocava mesmo era a dor de ter a alma apagada dia após dia. Ela não era mais Monique. Era a “Senhora Albuquerque”. Um troféu. Uma propriedade.

— Tá demorando, Monique.

A voz veio da porta. Sem bater. O Paulo nunca batia. Ele era o dono da casa, o dono das fechaduras e o dono dela.

Monique congelou, o pincel de maquiagem parado no ar. Pelo espelho, viu o marido entrar. Paulo, com seus 48 anos, era um cara que exalava perigo disfarçado de elegância. O smoking italiano caía perfeito no corpo dele, escondendo a brutalidade que ele guardava só pra quando tavam a sós.

Ele veio andando até ela, o sapato de couro italiano abafado pelo tapete persa. O cheiro dele chegou antes do toque: uísque envelhecido, charuto Cohiba e aquele perfume amadeirado caro que, pra Monique, tinha cheiro de medo.

— Tô quase pronta, querido ela soltou, forçando um sorriso. Se o sorriso não colasse, o bicho ia pegar.

Paulo parou atrás dela. Não olhou pro rosto dela no espelho. Cravou o olho no decote profundo do vestido vermelho sangue da Versace.

— Vermelho — ele mandou, a voz calma, deslizando as mãos geladas pelos braços nus dela.

— A cor da paixão. Ou do sangue. Sabe o que dizem, Monique? Que mulher de vermelho quer ser vista.

— Você que escolheu o vestido, Paulo.

Os dedos dele pararam no pescoço dela. O aperto foi sutil, mas firme o suficiente pra cortar o ar por um segundo. Um aviso.

— Eu escolhi porque você é minha vitrine. E eu exijo que a minha vitrine esteja impecável.

Ele se inclinou e beijou o pescoço dela, bem em cima da artéria pulsando. Monique fechou os olhos, segurando o enjoo. O beijo foi úmido, possessivo. Não tinha amor ali, só tava marcando território.

— A Valéria me disse que você dispensou o almoço — ele sussurrou na pele dela.
Monique sentiu um arrepio ruim. Valéria.

A governanta. A carcereira. A X9 que vigiava ela quando o Paulo tava “trabalhando” no porto.

— Eu tava enjoada.

— Enjoada — ele repetiu, soltando ela de repente.

— Mulher fraca me irrita.

Come alguma coisa antes da gente sair. Não quero que você desmaie e me faça passar vergonha na frente do Senador.

Ele se afastou, indo até o cofre na parede pra pegar o Patek Philippe dele.

— Bora. Tenho novidade na equipe de segurança hoje.

O Rogério deu um vacilo… e você sabe como eu resolvo vacilo.

Monique sabia. O Rogério devia tá servindo de comida pra peixe no fundo da Baía de Guanabara. Ela terminou de se arrumar, colocou os brincos de diamante que pesavam feito algema na orelha e respirou fundo. Aguenta, ela pensou. Só mais essa noite.

Descendo a escadaria da mansão, o luxo sufocava. Lustre de cristal, quadro roubado, mármore gelado. No saguão, a Valéria tava lá. A governanta com aquela cara de nojo contido, mãos cruzadas no uniforme impecável. Lançou aquele olhar de cima a baixo pra Monique, cheia de desprezo.

— O carro tá pronto, Seu Paulo — disse a Valéria, voz mansa só pra ele.

Mas Monique não tava nem aí pra Valéria. Nem pro Paulo. O olhar dela travou numa presença maciça perto da porta principal.

Tinha um cara novo ali. E ele não parecia com os outros gorilas que o Paulo contratava.

O maluco era alto, enchendo o terno preto com uma carcaça densa, letal. Pele bronzeada, curtida de sol, cabelo na régua, estilo militar. Uma cicatriz fina, branca, cortava a sobrancelha esquerda dele, dando um ar de quem já viu o inferno e voltou andando.

Mas foram os olhos que paralisaram a Monique no meio da escada. Olhos escuros. Fundos. De quem pensa rápido. Ele não tava olhando pro chão, como os empregados tinham que fazer. Ele tava olhando direto pra ela.

Não pro vestido. Não pras curvas que o Paulo exibia. Ele olhou no olho dela.

Foi um choque. Monique sentiu o calor subir pelo pescoço. Pela primeira vez em anos, alguém olhava e via ela, não o chaveiro do traficante. Tinha alguma coisa naqueles olhos… uma fome guardada? Avaliando se ela era ameaça? Ou seria… que ele reconheceu a dor dela?

— Esse é o Filipe — apresentou o Paulo, sem parar de andar, ajeitando a abotoadura.

— Ex-Comandos Anfíbios.

Veio recomendado pelo pessoal de Medellín. Dizem que é o melhor cão de guarda do mercado.

Filipe nem se mexeu. Só inclinou a cabeça de leve.

— Senhora Albuquerque

— a voz dele era um trovão baixo, grave, raspando nos nervos da Monique de um jeito que fez ela querer chegar mais perto.

— Vamos logo — resmungou o Paulo, passando pelo Filipe.

Filipe abriu a porta pesada de madeira maciça. Monique teve que passar raspando nele. O vento que bateu trouxe o cheiro dele. Não era uísque e charuto. Era sabão neutro, chuva e uma nota metálica, masculina, limpa. Cheiro de homem de verdade, não de monstro de terno.

Ela tropeçou de leve no último degrau — o salto agulha traindo o nervosismo.

Antes que ela pudesse cair, uma mão firme, grande e quente agarrou o cotovelo dela. O toque foi elétrico. Monique arfou. A mão do Filipe era áspera, calejada. Mão de quem segura fuzil. Ele estabilizou ela com uma facilidade absurda, sem força bruta, só suporte puro.

— Cuidado — ele murmurou, tão baixo que o Paulo, já na calçada, não ouviu.

— O chão é traiçoeiro pra quem tem asa no pé.

Monique olhou pra ele, zonza. Ele chamou ela de anjo? Ou disse que ela queria voar dali? Ela puxou o braço, sentindo a pele queimar onde ele tocou.

— Obrigada — ela sussurrou, a voz tremendo.

Caminharam até a Mercedes blindada na garoa fina do Rio. O Paulo já tava no banco de trás, berrando no celular. Monique entrou, se sentindo pequena e encurralada.

Filipe assumiu o volante. A porta fechou, isolando eles no aquário à prova de bala. O motor roncou suave.

Monique ajeitou o vestido na coxa, tentando esconder a tremedeira na mão. Levantou o olho pro retrovisor interno. Os olhos do Filipe já tavam lá. Esperando pelos dela.

Ele observou ela um segundo a mais do que devia. Não tinha safadeza barata no olhar. Tinha intensidade. Como se tivesse decorando o rosto dela. Como se soubesse que, debaixo da maquiagem cara, tinha roxo que precisava ser cobrado.

O carro arrancou, deixando a mansão pra trás. Mas Monique teve a sensação estranha de que, pela primeira vez, o perigo real não tava fora dos muros. Tava ali, sentado no banco do motorista, com ombro largo e um olhar que prometia botar fogo no mundo dela.

A gaiola de ouro tinha um guarda novo.

Restava saber se ele ia trancar a porta… ou explodir a porra toda.

2

O Salão Dourado do Copacabana Palace brilhava mais que árvore de Natal de shopping. Lustres de cristal gigantes, pesando uma tonelada, pendurados no teto, jogando aquela luz amarela que não perdoa ninguém em cima da elite carioca.

Monique entrou de cabeça erguida, braço dado com o Paulo. Sentia os olhares furando ela feito agulha. As mulheres dissecavam ela procurando defeito na maquiagem ou celulite; os homens “comiam” ela com o olho, calculando quanto custava aquela mercadoria.

— Sorria — Paulo sussurrou, a boca roçando na orelha dela, onde o diamante gelado descansava. — O Senador Vilela tá de olho na gente.

Monique abriu o sorriso automático. Era uma máscara que ela usava há tanto tempo que achava que já tinha grudado na cara.

— Ele tá interessado nos teus esquemas no porto, Paulo.

— Ele tá interessado em grana, querida. E em perna bonita.

— Paulo apertou a cintura dela. Os dedos, fortes e ruins, afundaram na carne macia através da seda vermelha do vestido. — Faz ele ver as suas, mas sem mostrar demais. Lembra: você é uma obra de arte minha, não um outdoor pra qualquer um.

Monique tremeu, não de frio, mas de nojo. O ar condicionado tava no talo, contrastando com o calor daquele monte de gente junta. O cheiro era uma mistura enjoativa de perfume importado, fritura de canapé caro e hipocrisia.

Enquanto o Paulo arrastava ela pro círculo de puxa-saco do Senador, Monique sentiu aquela parada de novo. A sensação de ter uma mira laser na nuca. Ela virou o rosto na maciota, fingindo procurar um garçom. Filipe.

O maluco não tava bebendo. Não tava comendo. Não tava rindo. Parado a uns cinco metros, encostado numa coluna de mármore, o Filipe era uma mancha escura no meio daquele dourado cafona. O terno preto parecia sugar a luz em volta dele. Ele tava de braço cruzado, relaxado, mas o olho…

O olho dele escaneava o salão que nem radar. Entrada. Saída de emergência. Cozinha. E aí, batata, parava nela.

Diferente dos outros “velhos babões” da festa, que olhavam pro decote dela com aquela safadeza barata, Filipe olhava pra mão do Paulo na cintura dela. Monique viu a mandíbula dele travar. Viu o músculo do pescoço saltar.

Ele tava puto. Não com ela. Por ela.

— Monique! — A voz do Paulo estalou feito chicote, trazendo ela de volta.

Ela virou rápido. O Senador Vilela, um baixinho careca com dente branco demais, esticava uma taça de champanhe pra ela.

— Seu marido tava me contando das suas obras de caridade, Dona Monique. Mulher bonita e bondosa… coisa rara.

— Seu marido tava me contando das suas obras de caridade, Dona Monique. Mulher bonita e bondosa… coisa rara.

Monique pegou a taça. A mão tremia de leve. A presença do Filipe, pesada ali na esquerda, e a pressão dos dedos do Paulo na direita, tavam deixando ela tonta.

— Obrigada, Senador. Eu só tento… ajudar.

— Ela é um anjo — Paulo mandou, sorrindo.

Mas o olho dele, focado na Monique, era puro gelo. Ele sacou que ela tava distraída. Sabia que ela tava olhando pro segurança novo. — Mas, às vezes, anjo é desastrado.

Paulo fez um movimento sujo. Bateu o cotovelo, “sem querer querendo”, no braço da Monique enquanto falava. Foi rápido. Maldade pura. O champanhe voou da taça, caindo direto no decote. O líquido gelado escorreu pelo meio dos seios, encharcando a seda caríssima.

Monique arfou, o susto do gelado e a vergonha fazendo ela recuar. A rodinha de conversa calou a boca. Todo mundo olhando pra mancha escura no peito dela.

— Puta que pariu, Monique… — Paulo soltou, fingindo decepção.

— Falei pra ter cuidado. Bebeu demais antes de sair de casa, porra? Ele nem esperou resposta. Puxou um lenço branco do bolso.

— Deixa eu limpar isso antes que manche essa merda.

O que rolou depois foi um esculacho público disfarçado de cuidado. Paulo começou a esfregar o lenço no colo dela. Botando força demais. Os dedos dele apertavam o peito dela contra o osso, machucando, esfregando a pele sensível com aquele pano grosso.
Monique sentiu o olho arder de choro. Queria empurrar ele. Queria gritar. Mas tava travada de medo do que ia rolar em casa se ela reagisse. O Senador até desviou o olhar, meio sem graça, mas o Paulo continuava, sorrindo pra plateia enquanto torturava a mulher.

— Tão lerda… — ele resmungou.

De repente, uma sombra cobriu os dois. O clima pesou. Ficou denso.
Uma mão grande, dedo longo e forte, entrou na visão da Monique. A mão travou o pulso do Paulo. O tempo parou no Copacabana Palace. Ninguém encostava no Paulo Albuquerque. Ninguém.

Paulo parou de esfregar, olhando pra mão que segurava ele, sem acreditar. Seguiu o braço até a cara do dono. Filipe tava lá. Tinha atravessado o salão no silêncio, feito fantasma.

— Solta — Paulo sibilou, baixo pra não dar escândalo, mas com veneno na voz.

Filipe não soltou na hora. Sustentou o olhar do patrão. Tava rolando uma guerra ali no silêncio, briga de cachorro grande.

— Senhor — a voz do Filipe era calma, profissional, mas Monique ouvia o rosnado por baixo.

— Tem uma chamada urgente na linha segura. É sobre a carga “branca” de Santos. Falaram que é Código Vermelho.

Falar do esquema ilícito fez a máscara do Paulo cair rapidinho. A ganância e a paranoia falaram mais alto que a maldade.

— Santos? Agora?

— É, senhor. O telefone tá com o chefe da segurança lá fora. Eles batem o pé que só falam com o dono.

Paulo olhou do Filipe pra Monique, calculando. Se fosse caô, o Filipe tava morto. Se fosse verdade, ele perdia milhões se não atendesse. Soltou o lenço, deixando cair no chão, no pé da Monique, que nem lixo.

— Fica aqui — Paulo ordenou, dedo na cara dela.

— Não se mexe. Não fala com ninguém. E tenta secar essa sujeira. Você tá ridícula.

Virou as costas e saiu batido pra varanda, catando o celular. Monique soltou o ar que tava prendendo num soluço seco. O joelho falhou. Ela ia cair se o Filipe não tivesse dado um passo à frente, fazendo barreira entre ela e o resto da festa. De costas pros convidados, ele virou um muro, um esconderijo onde ninguém via ela desmoronar.

— Ele não ligou, né? — Monique sussurrou, tremendo, olhando pro vestido molhado.

Filipe olhou pra baixo. O olho dele seguiu o caminho do champanhe. Viu a pele vermelha onde o Paulo esfregou com raiva. O nariz dele dilatou. Respirou fundo, sentindo o cheiro do medo dela misturado com álcool.

— Não — ele respondeu, voz rouca. — Ninguém ligou.

— Você é maluco. Ele vai descobrir. Ele vai te matar. Filipe levantou o olhar pra cara dela. Aquele olho preto prendeu ela.

— Deixa ele tentar.

Tirou o próprio lenço do bolso interno. Pano simples, de algodão, mas tava limpo e quente do corpo dele. Ele não esfregou. Só estendeu o lenço pra ela, mantendo a distância de segurança, mas com um olhar que tava quase abraçando ela.

— Se seca, Monique — ele falou o nome dela seco, sem “Dona” nem “Senhora”. Foi rebeldia pura. Segredo deles.

— Você não é ridícula. Você é a única parada de verdade nesse salão maldito.

Monique pegou o lenço. O dedo deles encostou rapidinho. A pele dele era quente. O calor subiu pelo braço dela, indo direto pro coração gelado.

— Por que você fez isso? — ela perguntou, secando o peito devagar.

Filipe olhou por cima do ombro, checando o Paulo lá longe. Depois voltou pra ela, baixando a voz num tom que era quase sussurro de cama.

— Porque eu sou pago pra proteger a vida do cliente. E eu vi a vida saindo do teu olho quando ele te tocou.

Monique sentiu uma lágrima escorrer, cagando a base que cobria o roxo no rosto. Filipe viu. A mão dele mexeu, reflexo pra limpar, mas ele travou, fechando o punho do lado do corpo.

— Ele tá voltando — Filipe avisou, postura endurecendo, virando estátua de novo.

— Respira. Levanta a cabeça. Não dá pra ele o gosto de te ver quebrada.

Monique puxou o ar, engolindo o choro, levantando o queixo. Quando o Paulo chegou, puto por não ter achado chamada nenhuma, Monique tava impecável, protegida pela sombra do cara que tinha acabado de comprar briga com o mundo por ela.

— Alarme falso — Paulo resmungou, olhando torto pro Filipe.

— O sinal caiu. Bora vazar. Essa festa me dá ânsia.

Enquanto andavam pra saída, Monique não olhou pra trás. Não precisava. Ela sentia o Filipe na cola dela. Um predador guardando outro predador. E, pela primeira vez, ela não se sentiu a presa.

Se sentiu o prêmio que ia fazer os dois se matarem.

3

A porta da Mercedes blindada bateu seco, trancando os três numa caixa de couro e silêncio. Lá fora, o Rio tava caindo. Um toró daqueles que transforma a Atlântica num rio de luz borrada e asfalto preto. Dentro da nave, o ar-condicionado tava no talo, gelado, parecia até IML.

Filipe assumiu o volante. Nem ligou o rádio. O único barulho era o limpador de para-brisa brigando com a chuva: vuco, vuco. Parecia contagem regressiva de bomba.

Paulo se jogou no banco de trás, cruzando a perna. O bicho tava possuído. O “alarme falso” na festa deixou ele na paranoia. Ele digitava no celular com raiva, a luz azul da tela iluminando a cara dele, que tava uma máscara de ódio.

Monique se encolheu no canto, colada na porta fria. Tentava virar fumaça. O vestido molhado de champanhe grudava no corpo, gelando a pele, mas o sangue dela tava fervendo.

— Bando de incompetente do caralho — Paulo resmungou, jogando o celular no banco de couro entre eles.

— O gerente do porto disse que não ligou. Ninguém ligou.

Ele virou devagar pra Monique. Movimento de bicho caçador.

— Tá achando graça, Monique?

— O quê? Eu não falei nada.

— Tu tá quieta demais. — Ele esticou o braço e catou a mão dela. Parecia carinho, mas ele apertou os dedos contra os anéis de diamante até o metal cortar a pele.

— Curtiu o circo lá dentro? Gostou de me ver sair correndo feito um otário?

— Paulo, tá doendo — ela sussurrou, tentando puxar a mão.

— É pra doer mesmo. Quem sabe assim tu aprende a não ser tão lesada. Aquele champanhe… foi de propósito, né? Pra chamar atenção? Pra todo mundo olhar pro teus peitos? Filipe, no banco da frente, não se mexeu. Mas o olho dele achou o da Monique no retrovisor interno. Eram dois buracos negros. Ele viu a mão do Paulo esmagando a mão dela. Viu a careta de dor que ela tentava segurar.

O carro, que tava suave a 80km/h, do nada deu uma guinada violenta pra esquerda, pneu cantando no asfalto molhado, jogando todo mundo pro lado.

— Que porra é essa?! — Paulo berrou, largando a mão da Monique pra se segurar na alça do teto. Filipe endireitou o volante com uma calma de psicopata.

— Motoqueiro na contramão, chefe. Tive que tirar.
Era caô. A pista tava limpa na frente. Monique viu. Paulo, distraído com o celular e a raiva, não viu nada.

— Presta atenção na estrada, animal! — Paulo gritou, ajeitando o paletó.

— Eu te pago pra dirigir, não pra matar a gente!

— Foi mal, chefe.

Mas no espelho, o olhar do Filipe não pedia desculpa porra nenhuma. Ele encarou a Monique de novo. O papo reto tava naqueles olhos duros: “Fiz por você. Fiz ele te largar.” O coração da Monique foi na boca. A ficha caiu pesada. O segurança novo não era só um funcionário. Ele era a barreira. E o maluco tava disposto a capotar o carro se precisasse pra proteger ela.

Paulo, ainda resmungando, voltou pro celular, ignorando a mulher agora que o susto quebrou o barato dele de torturar ela. O silêncio voltou, mas agora a energia tava diferente. Era tesão. Era perigo.

Monique não conseguia tirar o olho do retrovisor. Ela secava o Filipe. Ele secava a boca dela, o pescoço, e o olhar descia, imaginando o resto. Era um jogo de voyeur suicida. Se o Paulo levantasse a cabeça e olhasse pro espelho, via a troca de olhares. Via a traição rolando ali, ao vivo, sem ninguém falar um “a”.

Monique sentiu um calor subir pela coxa. O medo de morrer misturado com o tesão de ser desejada por um cara perigoso era uma droga forte. Ela tomou uma decisão maluca.

Na manha, devagarzinho, ela cruzou as pernas. O vestido vermelho, com aquela fenda absurda, escorregou pro lado. A luz dos postes entrava em flash dentro do carro. Escuro. Luz. Escuro. Luz.

Num desses flashes, a fenda abriu o suficiente pra mostrar a pele branca da coxa dela, subindo até onde a liga de renda preta da meia 7/8 apertava a carne macia. Ela sabia que o Paulo não ia ver. Ele tava no ponto cego, afundado no banco e no ego dele. Mas o retrovisor… o retrovisor pegava tudo.

Filipe viu. A pupila dele no espelho dilatou na hora, engoliu a íris. A mão dele no volante apertou o couro com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O carro acelerou, o motor V8 rugindo, respondendo à tensão do piloto.
Ele engoliu seco, o gogó subindo e descendo na garganta. Não desviou o olhar. Ele devorou aquele pedaço de pele proibida.

Monique sustentou o olhar dele pelo espelho. Abriu a boca de leve e puxou o ar fundo, o peito subindo e descendo, mostrando pra ele que ela sabia que ele tava olhando. E que ela queria que ele olhasse. Era um pacto de silêncio, selado com tesão e ódio pelo cara sentado do lado dela.

— Tamo chegando

— a voz do Filipe quebrou o silêncio. Tava rouca, arranhada, parecia que tinha comido vidro. O portão da mansão apareceu na chuva feito a boca de um monstro. Paulo guardou o celular.

— Ótimo. Tô morto. — Ele olhou pra Monique, e aquele brilho ruim voltou no olho dele.

— Espero que você tenha pensado em como vai pagar pelo vexame de hoje, Monique.

Monique sentiu o estômago revirar. Ela sabia o que aquilo queria dizer. Mas aí ela olhou pro banco da frente. Filipe tava desligando o carro. Ele olhou pra trás, pra ela, uma última vez antes de sair pra abrir a porta.

O olhar dele prometia sangue. Ele ouviu a ameaça do Paulo.
Quando o Filipe abriu a porta pra ela, a chuva molhou a cara dele, misturando com o suor frio da tensão.

— Boa noite, patroa

— ele mandou.

Mas o que a Monique ouviu, naquela frequência secreta que agora rolava entre eles, foi: “Aguenta firme. Tô na atividade.”

Ela entrou na casa, sentindo o peso da porta fechando nas costas. Mas, pela primeira vez, ela não se sentiu sozinha na cova dos leões. O leão mais brabo tava do lado dela.

4

O barulho da fechadura do quarto principal estalou feito tiro no silêncio da madruga.
Pro mundo lá fora, a suíte master da mansão era o auge da ostentação: trezentos metros de mármore, lençol de mil fios e vista pro Cristo. Pra Monique, era câmara de tortura gourmet.

Paulo arrancou o paletó e jogou no chão. Afrouxou a gravata, o olho vermelho de uísque e ódio cravado nela.

— Tira o vestido — ele mandou. Sem grito. Só aquela calma de psicopata.

Monique levou a mão nas costas, caçando o zíper. O tecido tava gelado e úmido de champanhe, colando na pele feito segunda pele podre. O dedo tremia tanto que não achava o fecho.

— Eu mandei tirar! — Paulo avançou.

Num bote só, ele agarrou o decote do Versace. O barulho de trinta mil reais rasgando foi agudo, doeu no ouvido. Monique arfou, cruzando o braço no peito pra se cobrir, enquanto a seda vermelha caía no pé dela que nem poça de sangue.

Ela ficou ali, parada no meio do quarto, só de lingerie preta e aquela meia 7/8 que o Filipe secou no carro. Paulo rodou ela, que nem tubarão. Cheirava a uísque puro.

— Gosta de se mostrar, né? — Ele sussurrou, parando atrás dela. Tocou as costas nuas com a ponta do dedo gelado.

— Gosta que os outros olhem pro que é meu.

— Não, Paulo… por favor…

— Cala a boca.

Ele agarrou o cabelo dela, puxando a cabeça pra trás, expondo o pescoço branco. Não beijou. Mordeu. Mordida de bicho, forte, doendo na junção do pescoço com o ombro. Monique gritou abafado, lágrima de dor pulando do olho. Ele tava marcando ela. Que nem gado.

— Isso é pra tu lembrar quem é o dono — ele rosnou na pele machucada.

— Amanhã, quando olhar no espelho, vai ver minha marca. E vai cobrir com maquiagem, igual a boa esposa mentirosa que você é.

Empurrou ela pra cama. Monique caiu no colchão macio, se encolhendo, esperando o pior. Esperando o peso dele, o cheiro dele, a violência de sempre.
Mas o peso não veio.

Paulo cambaleou. A mistura de uísque, o estresse da “carga” e os tarja preta que ele tomava pra apagar cobraram a conta. Ele sentou na beira da cama, esfregando a cabeça, resmungando coisa sem nexo sobre traidor e dinheiro.

Segundos depois, capotou pro lado. Apagou. O ronco pesado encheu o quarto.
Monique ficou travada uns dez minutos, coração na boca, sem acreditar na sorte. Ele dormiu. O monstro dormiu.

Levantou da cama devagar, corpo doendo, a marca no pescoço pulsando. Olhou pro marido desmaiado. Tinha uma pistola Glock preta no criado-mudo, do lado do relógio de ouro. Por um segundo maluco, Monique olhou pra arma. Ia ser tão fácil.
Mas não. A Valéria ia ouvir. Os seguranças iam vir. Ela ia acabar morta ou presa. Precisava sair dali. Precisava tirar o cheiro dele da pele.

Vestiu um robe de seda preta, amarrou com força na cintura e saiu do quarto na ponta do pé. A casa tava um breu. Silêncio da madrugada. Monique desceu pro nível de baixo, onde ficava a piscina coberta. O lugar era úmido e quente. A piscina iluminada por luz azul parecia uma pedra preciosa líquida. O barulho da chuva lá fora chegava abafado.

Foi até a borda. Tirou o robe, deixando cair no chão. Ainda de lingerie, entrou na água. O choque térmico foi um alívio. A água morna abraçou ela, lavando o suor frio, o cheiro de charuto, a sensação de sujeira. Mergulhou a cabeça, ficando submersa no silêncio azul, querendo ficar ali pra sempre, suspensa no nada. Quando o pulmão queimou, ela subiu, jogando o cabelo molhado pra trás, puxando o ar com força.

— Você não devia estar aqui.

A voz veio da sombra. Grave. Rouca. Monique deu um grito, virando na água, cobrindo o peito com o braço.

Filipe saiu de um canto escuro perto das espreguiçadeiras. Tinha tirado o paletó e a gravata. A camisa branca tava com os botões de cima abertos, manga dobrada até o cotovelo, mostrando antebraço forte, cheio de veia saltada e uma tatuagem tribal desbotada sumindo embaixo da roupa. Ele segurava uma toalha branca na mão.

— Você me assustou — Monique disse, voz tremendo, a água batendo na altura do peito.

— É meu trampo vigiar a sombra, Monique. — Ele não mandou um “Senhora”. Falou o nome dela como se fosse reza braba.

Veio andando até a borda. O sapato estalou no piso. Parou e olhou pra baixo. A água era transparente. A luz azul mostrava tudo. Monique sabia o que ele tava vendo. A lingerie preta molhada, colada na pele, transparente. As curvas. A marca roxa fresca no pescoço.

Filipe agachou. O olho dele focou na marca de dente no ombro dela. A cara dele mudou. O rosto de pedra desmanchou, dando lugar a uma raiva crua, assassina.

— Ele fez isso agora? — perguntou, voz tão baixa que quase sumiu no barulho do filtro da piscina. Monique tocou o pescoço molhado.

— Ele tava bravo.

— Isso não é raiva. Isso é doença. Filipe estendeu a mão.

— Sai da água.

Monique travou. Sair significava se mostrar inteira. Sair da proteção do azul. Mas a ordem dele não era de patrão. Era pedido de homem que queria cuidar.
Nadou até a escada e subiu. A água escorria do corpo, pesando a renda preta. Parou na frente dele, tremendo, vulnerável, pingando no chão de pedra.

Filipe não recuou. Abriu a toalha branca. Mas em vez de entregar, ele enrolou nela. Passou a toalha pelo ombro dela, puxando ela pra perto. Por um segundo, ficaram ali, peito a peito, separados só pelo tecido felpudo e pela camisa úmida dele.

Monique sentiu o calor do corpo dele passar pro dela. O maluco era uma fornalha. Levantou o rosto. Filipe era bem mais alto. Olhava pra ela com uma intensidade que fazia a perna dela bambear.

— Tu tá tremendo — ele murmurou.

— Tô com frio.

— Mentira — ele soltou, roçando o nariz na têmpora dela, cheirando cloro e pele. — Tu tá com medo. E tá com tesão.

A verdade nua e crua calou a boca dela. Sim. Tava. O perigo de serem pegos ali, com o Paulo dormindo em cima e a Valéria rondando, era a droga mais forte que ela já usou.
Filipe mexeu a mão. Não tocou em nada proibido. Segurou o rosto dela, o dedão fazendo carinho na bochecha molhada.

— Eu vou matar ele, Monique. Não foi ameaça da boca pra fora. Foi promessa.

— Não fala isso.

— Eu vou. Não hoje. Não amanhã. Mas logo. — Ele encostou a testa na dela. — Ninguém marca o que é meu e continua respirando. O que é meu.

Monique fechou o olho, se entregando. Naquele momento, molhada, machucada e tremendo na beira da piscina, ela trocou de dono. E esse dono novo não queria prender ela. Ele queria botar fogo no mundo junto com ela.

— Filipe… — ela sussurrou, a boca quase colada na dele.

— Vai

— ele soltou ela de supetão, dando um passo pra trás, como se o toque dela queimasse.

— Sobe pro quarto antes que eu esqueça que sou funcionário e faça uma parada que vai acordar a casa inteira.

Monique apertou a toalha no peito. Olhou pra ele uma última vez. Ele tava respirando pesado, mão fechada em punho do lado do corpo, lutando contra o instinto de bicho.

Ela correu pra escada, deixando pegada molhada no chão. Mas levou uma coisa que não tinha quando entrou na água: a certeza de que a cobrança tava chegando. E ela ia ter olho escuro e mão quente.

Esse capítulo muda tudo. A História Continua clicando no botão abaixo!

Acesso instantâneo e completo | Leitura ilimitada

© 2026 O Beij0 da Pólv0ra. Todos os direitos reservados.